terça-feira, 22 de dezembro de 2009

2009 que se vai


Afonso Vieira

Nas proximidades das festas de fim de ano, sempre nos vemos instados a fazer um balanço reflexivo da vida, das aspirações e conquistas. Enquanto milhares de pessoas se esbaldam em compras e falsos ou momentâneos sentimentos de bondade, torno-me ainda mais cético sobre o que nos cerca.

Outro dia comentava com uma amiga que, provavelmente, tenha encontrado minha paz interior. Indagou-me como e onde, respondi: em mim. Passo a pensar nas crenças e necessidades das pessoas em minha volta, muitos buscam sua serenidade na religião, no amante ou em alguma causa utópica. Olho para os fatos, às vezes até com certo desprezo, e dificilmente consigo enxergar algo que sirva para minha pessoa.

Não tenho crenças, dogmas, ídolos ou ideologia, e ainda assim, vivo com a cabeça tranqüila. Alguns já me disseram que não levo a sério ensinamentos religiosos porque nunca precisei de um Deus; eu já me indago ao contrário, não acredito que possa ter necessidade de algo que não encontre dentro da minha própria cabeça. Detesto ateus militantes, nem mesmo o sou, há um abismo entre um agnóstico e um ateu. Posso dizer que mesmo cético, tenho boa dose de otimismo na vida e procuro usufruir da melhor forma possível tudo que ela me deu até o presente. Mas, reservo-me o direito não acreditar em algo extremamente contraditório e que me cerceie a liberdade. Não posso mudar certos sentimentos, mas posso conviver com eles harmonicamente.

Muitas vezes, no policiamento constante para não parecer arrogante ou mal interpretado, chego a me irritar com crenças infundadas, mas respeito e vejo que cada um, na sua forma, busca e encontra alívio onde melhor se encaixa. Torço para que cada vez mais pessoas atinjam o que chamo de maturidade espiritual, independente da forma que isso venha a ocorrer.

Nas minhas leituras diárias acabo me deparando com diversos textos e argumentos, uns rasos demais, sem embasamento suficiente, outros já com maior consistência. Houve uma época que chegava a entrar em debates, hoje tenho pouca inspiração para isso, faço o que é melhor para mim e aos que me cercam, não iremos mudar quem não tem essa intenção. O mundo ensinará os caminhos corretos, uns aprendem da melhor forma, outros pelos meios mais árduos.

Aos políticos – todos - reservo meu completo desprezo, nem por isso deixarei de fiscalizá-los e cobrá-los. Às religiões e crenças, deixo meus cumprimentos pelo trabalho de conforto que levam às mentes necessitadas, ainda que tenha grandes ressalvas, numa equação simples, entendo que o saldo é muito positivo. Aos utópicos, que insistem em enxergar a “salvação” da humanidade em teorias ultrapassadas e desconexas, sejam econômicas ou sociológicas, deixo a recomendação de abrirem as mentes, aceitando o contraditório e aprendendo com a prática e o equilíbrio necessário. Aos amigos e entes queridos, um sincero obrigado!

Boas festas!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Uma longa viagem ao topo


Recentemente fiz uma curta viagem até a capital do país vizinho, a Argentina. Planejei visitar uma grande amiga e de quebra assistir uma de minhas bandas preferidas. Sinceramente, a impressão daquela cidade foi muito melhor do que imaginava.


Logo que cheguei, fui recebido pelo simpático Horácio, um remis arrumado pela colega ali residente. Muito falador e prestativo, foi me ciceroneando do aeroporto de Ezeiza até a Villa Crespo. Após chegar fui beber e procurar um hotel, nas andanças pelos arredores acabei me situando em um hostel em Palermo, bairro regado a bons bares, gente bonita e com tudo que um apreciador da noite necessita.


Nas primeiras cervejas – de litro, diga-se – fizemos contato com diversos estrangeiros, a quantidade de turistas é impressionante. Gente de todo o mundo circula por aquelas plagas. O único senão fica pela temperatura do saboroso líquido, muito aquém dos padrões tupiniquins.

Literalmente, troquei o dia pela noite. Apesar da insistência de minha anfitriã em me mostrar os pontos turísticos, não houve tempo nem disposição para tal. Oras, não há nada melhor que estar em boa companhia – uma das amizades mais sólidas que já construí -, longe dos “pagodes” e “sertanejos” brasilis, apreciando bebidas e culinária diferentes, sem nenhuma preocupação.


O hostel era outro atrativo a parte, era um local com muita gente jovem - eu devia ser um dos anciões do local - em ótima localização, poucas quadras da praça de Palermo, com muitas mulheres bonitas hospedadas e um barzinho perfeito para o “aquecimento” noturno. E o preço? Ah, o preço, irrisório para qualquer turista.


No domingo foi o grande dia. Acordei tarde demais, tomei um banho e fui acordar a nobre amiga, pegamos um ônibus e nos deslocamos para o estádio do River Plate. Assitir Angus Yung e Brian Johnson ao vivo, faz qualquer fã de rock ficar ansioso muito antes do tempo.


Outro ponto positivo: não se vende bebidas alcoólicas no estádio nem em seus arredores. Tivemos que “camelar” algumas quadras para apreciar o néctar da cevada antes do show. Bebemos algumas Brahmas de litro e depois compramos uma descartável para irmos nos deliciando até o evento. Curioso verificar que os pais levam os filhos pequenos aos shows, com uma naturalidade espantosa.


A desenvoltura e espontaneidade de minha cicerone fizeram com que, em curto espaço de tempo, fizéssemos diversos contatos com a população local. Dentro do estádio já estávamos trocando conversa e e-mails com vários nativos.


O show! Ah o show! Se havia alguma dúvida que AC DC era/é uma maiores atrações musicais do planeta, não restou a mínima hipótese. A estrutura montada, somada a presença de palco dos músicos, nos levou ao êxtase rapidamente. Desculpem-me, mas quem perdeu de vê-los ao vivo – provavelmente é a última turnê -, perdeu uma das poucas oportunidades de ver Deus (do rock). Angus, literalmente, é a alma do rock’n roll!


Minha anfitriã me levou, após o espetáculo, para conhecer as ruas e bares da região próxima ao local. Andamos e decidimos adentrar a um bar bem undergroud. Ficamos ali, jogando conversa fora, bebendo cerveja e tirando fotos do lugar e seus clientes. No fim da noite já estávamos fazendo a festa juntamente com todos os demais patrícios de mesas. Lá pelas tantas, decidimos sair novamente pelas ruas. Infelizmente acabamos presenciando uma cena deprimente, um imbecil agrediu sua parceira, a qual socorremos e levamos a uma delegacia, nesse meio tempo nossos hermanos sumiram no mapa.


Encaminhada a garota, devidamente entregue ao irmão na porta da polícia, fomos comer algo, já era dia claro. Finda a refeição, voltamos para meu hostel. Enquanto alguns turistas se preparavam para o dia com o café da manhã, bebíamos as últimas cervejas que meu dinheiro ainda comportava – a essa altura já me utilizava de dólares, os pesos reservados para aquela noite já haviam se esvaído. Após toda essa batalha, lá pelas 10hs da manhã, só restou a cama.


No último dia fizemos algo mais ameno, resumimos a saída para saborear uma parrilla. Após, despedi-me da amiga, com a promessa de retorno - eis uma certeza -, voltei para minhas acomodações e me preparei para a longa jornada de retorno. Satisfeito, enriquecido e feliz. Valeu cada minuto e centavo gasto, só não cometerei novamente o erro de percurso: não pretendo embarcar por Assunção, não mais.


Mas é isso, o que se leva da vida é somente a satisfação pessoal, os momentos felizes e a alegria da certeza de ter feito o que se gosta, sem ligar muito para convenções e padrões que nos limitem. A liberdade plena é para poucos privilegiados que sabem usufruir daquilo que nos agraciaram. Libertários como eu, gostam da luxúria, do novo e da falta de amarras, sem dogmas, sem tratados e sem nada restritivo demais.


Ps. Dificilmente vou achar normal essa coisa de homem beijando homem no rosto. Ah, e las chicas são interessantíssimas também.

domingo, 29 de novembro de 2009

Divagações


Ultimamente ando extremamente ansioso, mais do que o normal, como se isso fosse possível. Talvez seja pelos preparativos para visitar nosso país irmão e de quebra, ouvir uma das maiores bandas do planeta. Mas pode ser também, dentro da inquietude que me é pertinente, dos ofícios que me sugam, da busca incessante pelo novo, ou pela irritação contumaz com os erros grotescos do dia a dia e a falta de caráter ululante de nossos compatriotas.

Leio livros, vejo filmes, patrulho na internet tudo que posso e me atrai. Há tempos perdi a esperança nos políticos, cada dia que passa, este sentimento se estende para pessoas do convívio – resguardando as raríssimas exceções de amizade. Dentro de minha “hiperatividade”, vejo-me instado a sair vagando de bar em bar, talvez minha fase boêmia ainda não tenha acabado, ainda que diminuído consideravelmente.

Sou um libertário, não no sentido político – neste me enquadro mais para minarquista – mas no sentido pleno da palavra. Sou desapegado a dogmas e ideologias, descrente das utopias que geram esperanças aos milhares de necessitados, seja de material ou espiritual. Meu ceticismo me embriaga, torna-me chato e, às vezes, até intolerante.

Ando com dificuldade de encontrar um livro que realmente prenda minha atenção, o último que consegui devorar sem delongas, foi um do Mario Vargas Llosa – sempre ele. Quando preparo minhas aulas, busco fontes alternativas, além dos livros tradicionais. Leio três ou mais artigos sobre o tema proposto, chego sempre a conclusão que “chovemos no molhado”, sempre! Como digo aos meus instruendos, devemos estimular nosso espírito crítico, saber separar e assimilar as coisas boas e aprender com as ruins. Nem mesmo Peter Drucker tem passado pelo meu escantilhão. É, ando crítico demais. . .

Ontem, enquanto me deliciava com uma cerveja e conversava com o botequeiro, falávamos sobre amizades e caráter. Ele, desiludido com todos os que considerou, eu, um privilegiado neste ponto, mas sempre soube enxergar corretamente a natureza dos que me cercam. Comentávamos sobre a hipocrisia em certos círculos, a sanha de alguns beócios em criticar pelas costas. Como sempre, é inevitável falar sobre nossos representantes do executivo e legislativo, sinceramente, minha azia me ataca só de pensar.

Estive lendo alguns artigos, algumas notícias. Tudo como antes, não há nada publicado que não tenha uma segunda intenção, algo subliminar, subjetivo. Alguns articulistas têm a maestria nas mãos, outros, nem tanto. Ainda que discorde de muitos, é sempre bom devorar um texto de alguém com elevada bagagem cultural. É inevitável pensar nos grandes filósofos e suas divagações monumentais, há tanto para se ler, tanto para aprender que não entendo minha falta de inspiração momentânea.

Vem a mente uma música, algo que me traz excelentes recordações, Uma pra estrada. Passam os segundos e a guinada radical reforça minha inquietação, guitarras estridentes e o melhor do hardrock invade minha sala.

Pois é, que filosofada na maionese. Ainda que mais maduro, que mais em paz comigo mesmo, o espírito rebelde e livre continua, afinal It's a long way to the top if you wanna rock 'n' roll.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ética, a imprensa e os blogs


Afonso Vieira

Estamos vivendo um fenômeno recente da popularização dos blogs, em todos os cantos do planeta o mecanismo da internet vem ganhando adeptos, derrubando a audiência dos meios de comunicação e se antecipando aos fatos. Temos a “democratização” da informação, porém, com o risco da falsa credibilidade.

Acompanho há anos jornais e revistas virtuais, a mídia impressa praticamente nem tenho contato, minhas últimas assinaturas findaram há mais de cinco anos. Como sempre procuro separar o joio do trigo, bem como verificar a veracidade das informações e as reais intenções deste ou daquele escriba, fico aterrorizado com a quantidade de probos de última hora - ou de ocasião - que surgem.

É público e notório – com raríssimas exceções - que rádios, televisões, jornais, revistas, e até mesmo os blogs, arrecadam verba publicitária de entes governamentais. É o ardiloso caminho de fretar com a isenção e ao mesmo tempo, tendenciosidade. Desde já descarto a utópica imparcialidade, pois ela não existe, não na prática!

Quando este ou aquele veículo inicia campanha difamatória contra uma administração, seja municipal, estadual ou federal, podemos começar a colocar as barbas de molho. Ressalte-se que um órgão de comunicação tem a obrigação de noticiar fatos de interesse público, ainda mais de desvios de conduta, ficando sempre resguardados dentro do limite da Lei. Mas a forma como é colocada é que estabelece a linha editorial de cada um.

Dentro de uma ética jornalística, devemos observar a apuração exata dos fatos, ouvir os lados envolvidos – quando for o caso –, e a forma que repassaremos as informações. Há também a necessidade de se considerar o público leitor, nível cultural e deficiências em interpretação. Não obstante, omitir informações preciosas e deturpá-las deve ser proibido, ao menos deveria!

Em âmbito nacional, é de fácil identificação a linha de cada publicação. Quando caímos para níveis estaduais e municipais, a tendência varia muito. Volta e meia o foco é alterado, conforme os interesses políticos imortalizados por Nicolau Maquiavel. Na busca pela audiência, é sabido que tragédias e escândalos aumentam o ibope, mas o exagero pode vir a caminhar para o lado oposto.

O corte de verbas publicitárias pode vir a ser o terror, tanto para o lado do poder midiático, como para um administrador público, seus defeitos podem ser exaltados ao extremo e sua imagem, denegrida com picuinhas infantis. É comum lermos ataques virulentos a este ou aquele personagem público, tal atitude é muito mais acentuada nos blogs. Os ataques tendem, muitas das vezes, ser mais ad hominem do que pelos atos praticados em si.

Qual o real interesse do chamado jornalismo de opinião? Pode ser forçar a abertura dos cofres públicos, pode ser interesse político, pode ser afinidade pessoal, ou mesmo recalque por ter sido preterido. Há “medalhões” com blogs que mudam de opinião de repente, atacando muitas vezes quem nada tem a ver com a situação. Temos para todos os gostos, tucanos, lulo-petistas, ou mesmo, o pior tipo: a ex-noiva – o exemplo maior deste ultimo é Paulo Henrique Amorim. Reinaldo Azevedo se vangloria de não postar comentários “petralhas”, o que não concordo, mas o nível das postagens dessa trupe que já presenciei, é realmente deprimente. Nassif é mais democrático, porém, muito mais demagogo. Mas há outros, de menor expressão, que posam de paladinos a moral, que só postam o que lhes convêm e quando denigrem somente quem querem atacar, não passam de hipócritas!

Não há nada pior que o discurso da luta de classes, neste caso, da disputa entre os “donos do poder” e os “cavaleiros da virtude”, que sozinhos lutam contra os detentores do capital. Verdadeira balela! É ótimo ser pedra, mas como se portariam caso fossem vidraça? Sim, muitos adorariam mesmo é estar do outro lado da trincheira.

Sinceramente, integridade, hombridade, isenção e vergonha na cara, têm faltado para muitos dos “éticos” de plantão, em todos os meios de comunicação.

Ps. A imprensa deve ser livre, sempre! Assim como se responsabilizar pelos atos e fatos que noticia.


http://www.24horasnews.com.br/evc/index.php?mat=2864

http://www.douradosagora.com.br/not-view.php?not_id=269325

http://www.noticiadahora.com.br/verNoticias.asp?NotID=11063

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O ócio produtivo


Às vezes me vejo pensando sobre o quão produtivo pode ser nosso ócio. Ao contrário da maioria, os momentos vagos podem nos brindar com verdadeiras pérolas, que podem vir a ter retornos dos mais variados, inclusive financeiro, por que não?

Eis-me aqui, sentado em uma biblioteca aguardando uma entrevista para ministrar aulas da disciplina de administração. Sem meus livros, sem filmes, e pior, sem computador ou internet! O que posso fazer? Abro meu fichário e aproveito para colocar os pensamentos no papel, em um prazeroso exercício mental.

Em diversas organizações, o setor de criação tende a ser o mais flexível, com normas e regras extremamente mais elásticas que o convencional. Curiosamente, indo de encontro com os demais departamentos, essa “ausência” de procedimentos padrões gera o aumento da produtividade.

Escrevi recentemente, em outro texto, que há momentos em que produzimos melhor nossos rabiscos, é o “plim” da inspiração. Não adianta forçar a produtividade, o resultado pode ser desastroso; há articulistas brilhantes, que volta e meia solta ensaios chinfrins, pois têm data marcada para entregar o ofício. É claro que me refiro à produção literária e das artes em modo geral, nesses casos o pensamento tem que fluir, literalmente! Não confundam com produção em série ou em escala industrial.

Vejo muito nos ambientes em que trabalho, os diversos tipos de ócio. É facilmente identificável o “morcego”. Enquanto pessoas perdem minutos preciosos com bate papo no messenger ou no cafezinho - que acaba durando meia hora -, prefiro ler notícias ou rabiscar minhas frases, ou ainda, estudar formas e métodos para melhorar rotinas já existentes.

Não existe funcionário – tenho verdadeira ojeriza ao termo colaborador – que cumpre suas oito horas diárias na plenitude, é praticamente impossível. Mas há os que cumprem prazos e metas, rigorosamente! Para essa parcela, quanto maior a gama de afazeres, sempre se desdobram e equacionam seu tempo, de sorte que conseguem fluir e manter um padrão de qualidade.

Cada um faz seu tempo. Enquanto alguns preferem o ostracismo ou o descaso, outros veem nos parcos minutos de folga, uma oportunidade ímpar de agregar conhecimentos, desfrutar de prazeres individuais e, em certos casos, até mesmo produzir algo . . . Tal como este bobo texto.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O antissocial

Certa vez escrevi um texto sobre a solidão, há aproximadamente um ano. Nele divagava sobre situações onde pessoas enxergam algo ruim, em que outras – as solitárias – conseguiam vislumbrar algo belo, prazeroso e de bom tom. Na medida em que me aprofundo em pensamentos filosóficos, creio que me torno mais antissocial, com menos apreço pelo meio que me cerca.

Antigamente fazia muitas amizades, e isso era uma constante. Sempre frequentava os locais “da moda” onde me sentia bem. Com o amadurecimento, o rancor e a chatice nos tornam extremamente mais seletivos, ao ponto de evitarmos nos sentar com este ou aquele ser que não nos agregam valor, ou mesmo nos levantar e ir embora de um estabelecimento por motivo banal.

Fico vendo que a autenticidade e opinião própria é algo que nos afasta de muita coisa. Não sou radical como amantes clássicos da solidão como Schopenhauer – mesmo porque seria muita pretensão me comparar com o escritor -, mas não é à toa que me identifico muito com sua obra.

Nossos atos e convicções dizem muito do que realmente somos, às vezes pequenas atitudes dizem muito mais que diversas palavras. Têm dias que sento na mesa de um bar, sozinho, peço uma cerveja e fico a divagar sobre milhares de coisas, outro momento muito propício para elucubrar é na hora da corrida solitária. Sempre penso que se conseguisse colocar no papel aquilo que vem à mente nesses curtos espaços de tempo, talvez produziria algo realmente de qualidade. Nunca fui fã do notebook, mas creio que será algo inevitável, eis uma forma de minimizar o abismo entre as idéias e o “papel”. Sentar em um café no fim da tarde e poder tergiversar ad infinitum é uma dádiva, mas só será à contento na individualidade do ser.

No livro Travessuras da menina má, do Mario Vargas Llosa, Ricardito – que era tradutor – se aproveitava dos cafés para executar seu ofício. A imagem que aquela leitura propicia do personagem é muito semelhante ao que penso quando me transfiro para um happy hour, seja onde for, sozinho com “papel e caneta à mão”.

A rabugice dos teimosos necessita de muito controle e policiamento. Muitos dissabores poderiam ser evitados, mas a força de nossas idéias tende a ir de encontro com o bom senso, por diversas vezes.

Mas é isso, a luta do lobo solitário que habita em nós é uma constante, como não acredito em valores e conceitos absolutos, creio que podemos mudar, para melhor ou pior, dependendo da ótica individual e situação de cada um. Mas que briguemos para que seja com cordialidade e respeito, que o “ermitão moderno” prossiga na sua busca incessante pela paz interior.

domingo, 11 de outubro de 2009

A consciência individual


Nas últimas décadas, temos sido bombardeados por leis e padrões de conduta que tendem a impor certos valores de um excessivo “politicamente correto”. Ainda que muitas das atitudes tomadas tenham sua razão de ser e pretendem atingir resultados satisfatórios a todos, elas tendem a ignorar o conceito de indivíduo.

O assunto é muito amplo e filosófico, mas todo tipo de debate é válido, pois tende a aprimorar definições e quebrar paradigmas. Hoje é raro conseguirmos ler, conversar ou visualizar pessoas realmente autênticas. Poucos têm coragem de ser e agir conforme a própria consciência. É a hipocrisia ululante tomando conta da sociedade.

É comum vermos textos com referências a filósofos e autores consagrados pela história, tal roupagem tem sido utilizada para dar um ar intelectual ou erudito ao escriba, mas muitas vezes o conhecimento é pífio ou a interpretação totalmente errônea. Falta o verdadeiro “eu” nas palavras, falta a própria opinião.

Não se pode mais fazer brincadeiras, não se pode fumar, não se pode beber, não se pode gritar, ser “eu mesmo”! Há patrulhamento ideológico e social em tudo, como se nós não fôssemos um ser pensante, querem pensar e agir por nós. Há uma nova santa inquisição em curso, onde não podemos mais ter defeitos, ou não podemos admiti-los!

Eu, por exemplo, nunca tive problema em aceitar minhas imperfeições - que são muitas. Expresso minha opinião doa a quem doer. Meus atos sempre assumi e respondi por eles, exerço meus direitos e cumpro meus deveres. Mas sou uma ilha dentre tantos. Talvez alguns, dos poucos iguais a mim, façam parte do meu círculo de amizade. Mas como sempre digo, não ligo muito para juízos de outrem.

Oras, chego a ler certas estultices que me dão nos nervos. Querem impor dogmas coletivistas ignorando nosso egoísmo. Sim, todos somos egoístas! Mas pouquíssimos possuem hombridade em admitir. Eu não quero resolver o problema do seu Zé da vila vintém, tenho minhas próprias prioridades. Talvez, quando realmente tiver solucionado meus impasses, possa vir a me dedicar ao próximo, mas sou eu quem decide isto!

Sabe quando seremos brindados por mentes como Nietzche e Schopenhauer novamente? Provavelmente nunca mais. A autenticidade se tornou defeito. Os dois filósofos que citei, eram brilhantes justamente por ser quem eram e não tinham vergonha de colocar seus pensamentos, preconceitos e frustrações.

Em uma reflexão extremamente particular, posso dizer que amo/amei pessoas muito mais pelos defeitos do que pelas qualidades. As pessoas com quem mais discuto e divirjo, são justamente meus melhores amigos.

As máscaras estão postas e ostentadas por todos os lugares. Mas não reclamem quando forem enganados pelo ente mais próximo, pois a verdade é relativa, mas a falsidade não!