Afonso Vieira
Não é novidade que o país atravessa um momento extremamente ímpar de sua história. De um lado vemos um país emergente, firmando-se como uma economia sólida e respeitada; do outro temos uma crise moral, onde as instituições e representantes chafurdam como “nunca antes neste país” no maior lamaçal, enterrando as virtudes que outrora eram motivos de orgulho e respeito, dando lugar aos mais desprezíveis sentimentos. Qual a solução para uma nação continental e com desigualdades tão grandes? Parece óbvio, mas não é, a resposta está na educação de base, feita com qualidade e responsabilidade.
Digamos assim: se nossas escolas do ensino fundamental e médio fossem equipadas com boa estrutura, professores qualificados e material didático adequado, teríamos certamente universitários críticos e inteligentes, eleitores menos manipuláveis e mais exigentes, profissionais competentes e confiáveis.
Quem é aprovado nas melhores universidades? Pessoas que estudaram nas melhores escolas e com grande acesso à informação. Resta então, à imensa maioria dos estudantes, cursos tidos como “menos importantes” e estabelecimentos de ensino de qualidade duvidosa – sendo que muita universidade pública se enquadra neste grupo.
Quem elege idiotas e reelege corruptos, fazendo campeões de votos seres que já deveriam estar na cadeia? Justamente os eleitores sem informação e sem capacidade de enxergar o que é evidente, a chamada massa de manobra manipulável.
De onde saem os melhores profissionais? Das melhores universidades, onde a seleção exige um alto grau de conhecimento e de interpretação.
Existem exceções, mas a regra geral é o acima exposto. Será que adianta investimento no ensino superior, se o problema vem do berço?
É claro que as universidades precisam manter um certo padrão e aprimorá-los, mas isso seria conseqüência natural caso tivéssemos jovens com elevado grau de conhecimento e noção da realidade. O que costumamos ver no Brasil, é um número astronômico de pessoas com o ensino médio concluso e que mal conseguem escrever um simples texto, que dirá interpretá-lo.
Com ensino fundamental e médio de qualidade, teríamos automaticamente uma melhora a médio prazo de todos os índices decorrentes do processo de formação; essa seria a solução para diversos problemas, incluindo as polêmicas cotas. Colocando todos os estudantes em igualdade de condições para concorrerem em um vestibular, deixaríamos a universidade para os que realmente estão aptos para a vida acadêmica - gerando justiça nos critérios de seleção - universalizando o que hoje é restrito a uma ínfima parcela da população: a excelência acadêmica.
Parafraseando Pitágoras, “educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”. O senso crítico e os moldes do caráter são firmados na infância e juventude, e é onde devem ser focados esforços na busca de mentes esclarecidas e brilhantes, o resto pode vir a ser a simples conseqüência.
Vou a um exemplo prático, é mais fácil ensinar o alfabeto a uma criança do que mudar o pensamento de um adulto, eis uma máxima de difícil contestação.
*Publicado em O Jornal, 12.07.2007.