
Afonso Vieira
Imagine um mundo onde todos são iguais, todos satisfeitos e fartos. Não há criminalidade. Não há doenças. Não há divergências de espécie alguma. Todos vivem nos melhores dos confortos e possuem tudo que necessitam. Agora voltando ao mundo real, isso seria um saco, um tédio propriamente dito!
Primeiramente, o igualitarismo total só ocorreria se todos pensassem de forma única. Nós, indivíduos, não teríamos aspirações pessoais, somente coletivas. A natureza humana, com todas as suas imperfeições, não existiria. Ódio, raiva, cobiça, inveja e outros tantos sentimentos comuns no ente carnal, sequer passariam perto dessa sociedade.
Recordo-me de A revolução dos bichos, de George Orwell, onde os animais se rebelam e criam seu mundo “perfeito”. Passado o fervor da rebelião, começa a surgir a verdadeira face da natureza dos indivíduos, ou seja: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.
Na outra ponta, temos a sociedade de consumo perfeita, todos lucram, todos conseguem galgar os postos nas respectivas carreiras. Os luxos individuais são supridos sem delongas. Os empresários são sempre honestos, não há corruptos nem corruptores. Trabalhadores rendem o máximo e estão plenamente satisfeitos com suas condições de ofício. Praticamente não há leis e normas, o Estado se resume tanto que chega a parecer ausente. Pois é, mais uma vez, esqueceram de combinar com a razão, com a lógica e a inquietação inerente ao espírito humano.
Não há sociedade, forma de governo, político-econômica ou o que quer que o valha, perfeita. Infelizmente, ainda é muito difícil colocar isso na cabeça de dinossauros ultrapassados que leram meia dúzia de livros, escritos em contextos totalmente diferentes do atual, e que sempre vislumbraram algo intangível.
De nada adianta ficar no campo das idéias, sem vivência e desempenho prático. As ideologias caem por terra ao menor contato com o poder, isso é fato! O ser humano, talvez por carência intelectual e espiritual, sempre tende a crer em algo que julga ser “o bem maior”, mas não passa de um hipócrita ululante, que não consegue sustentar suas pregações.
É curioso verificar que as nações e sociedades culturalmente mais desenvolvidas, são justamente aquelas em que a liberdade e direitos fundamentais são mais preservados. Não há a necessidade de excesso de regulamentações, e as poucas existentes são devidamente cumpridas. Seus preceitos foram conseguidos após séculos de aprimoramento, sempre jogando no caminho do consenso, no equilíbrio.
Biltres fundamentalistas continuam a tratar política de Estado, como se fosse algo meramente partidário ou de governo específico – portam-se como torcedores de futebol. Em ano eleitoral, essa excrescência tende a se agravar. Houve um certo tempo em que o cidadão honrava sua palavra, esta já bastava. Hoje, nem com inúmeras evidências e provas, conseguimos dar exemplo de punição aos ordinários que saqueiam o erário – e eles estão em todas as esferas do poder: municipal, estadual ou federal; sejam de direita ou de esquerda - sabe-se lá o que isso significa hoje em dia.
Eu, como um defeituoso ser que sou, tenho uma utopia: o “ordem e progresso” de nossa bela bandeira serão cumpridos. Representantes públicos que não sabem de nada, assinam documentos sem ler, flagrados embolsando dinheiro, que montam esquemas de corrupção das formas diversas, todos, sem exceção, serão enquadrados exemplarmente! A população terá exemplos de honra, lealdade e probidade, pois isso será, com já dito, uma política de um Estado, democrático e de direito. Pena que isso não passe de, como já dito, uma nobre utopia . . .
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