domingo, 6 de setembro de 2009

A morte do bom senso


Afonso Vieira

Pouquíssimas coisas efetivamente me tiram do sério, são raras as vezes em que me vejo realmente irritado. Podem ser atitudes de certas pessoas, alguns comentários ou cobranças do dia a dia. Vemos que o bom senso, quando buscado constantemente, a tolerância e o aprendizado constante, sabendo conviver nas adversidades, deveriam ser o norte para a vivência pacífica.

O mundo atual tende a um equilíbrio em praticamente todas as áreas, verifica-se facilmente na teoria política, que cada vez mais tende ao centro. As diferenças nos comportamentos governamentais são mínimas, reduzindo-se a querelas assistencialistas, tamanho estatal – mas que se diferenciam muito pouco.

Nas organizações privadas, ao menos nas de grande porte, vemos que a busca tem sido na aplicação correta de leis, normas e padrões, até mesmo os ambientais. Dificilmente vemos nos grandes conglomerados, a saída de produtos sem emissão de nota fiscal, por exemplo. As horas extras têm sido pagas rigorosamente. O recolhimento de impostos não tem falhado.

No meio social temos uma tolerância maior com as diferenças. O trato das pessoas tem sido mais polido. Ações de desprezo, preconceito e humilhação são combatidas de forma mais acentuada. Enfim, caminhamos lentamente para uma sociedade melhor, digamos assim, mais justa.

O exposto até aqui tem sido a regra que vemos e vivenciamos no cotidiano. Mas há uma parcela, que ainda é minoria, que teima em radicalizar padrões de conduta ao ponto mais desprezível possível.

Sob bandeiras políticas – que se dizem ideológicas - vemos o assalto constante do erário. Alguns grupelhos, parados no tempo, ainda insistem em teses estapafúrdias que não têm mais espaço na atual conjectura.

Continuamos vendo empresas envolvidas em casos de corrupção, sonegação, até mesmo tráfico. Há notícias de que até mesmo direitos trabalhistas têm sido ignorados, mesmo o empregador tendo completa condição de pagá-los.

No meio que nos cerca, nas situações mundanas, ainda encontramos seres vis. Falsos moralistas, sem a menor educação. Racistas, homofóbicos e demais criminosos, escondem-se agora sob o manto do politicamente incorreto. Há ainda os “coitados”, que se sentem injustiçados, ofendidos por tudo e por todos, mas não conseguem enxergar que o que colhem é exatamente o fruto daquilo que plantam diariamente. Costumo dizer que, normalmente, a ofensa está muito mais na cabeça do ofendido, do que na do suposto ofensor. Não nos esqueçamos dos conspiracionistas, que creem piamente que o fato de criticar o atual governo, já é salvo conduto para a intelectualidade, ainda que tenham que fazer esforços hercúleos para redigir uma simples frase. Esses hipócritas deixam suas máscaras caírem facilmente quando postos à prova, ou ainda, borram-se todos nas calças na frente de adversário à altura.

Se todos tivessem bom senso, as Leis poderiam ser abolidas, ou serem reduzidas a meia dúzia de artigos, isso seria o coroamento de uma sociedade ideal para um libertário como eu. Infelizmente, o que vemos é a necessidade cada vez maior de enrijecimento das normas. Colocando uma visão cética, e não utópica, o ser humano sempre precisou, precisa e irá precisar de uma boa dose de hierarquia e disciplina, sempre!

O padrão normal de conduta de um cidadão de bem, tem passado longe do comportamento de certos biltres de plantão. Para citar um exemplo bem recente, utilizo-me da Lei Antifumo, por causa de uma parcela de pessoas que não respeitam o ambiente alheio, todos os tabagistas sofreram sanção. É uma medida autoritária, mas as leis sempre são impositivas, e só se fazem necessárias quando não há outra solução. Fazendo um adendo, as comparações que tenho lido com medidas nazistas, são totalmente toscas e fora de contexto, aliás, a fuga para Hitler é o primeiro sinal que já se perdeu o debate.

Em 187 anos de independência, ainda engatinhamos como seres maduros, o pobre bom senso é assassinado diariamente, por culpa de pequena parcela - mas muito danosa – de “cultos”, “inteligentes” e “adultos”, que nunca saíram do jardim de infância. Sad but true!

http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2009/09/18/a-morte-do-bom-senso-767669724.asp

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