sexta-feira, 6 de julho de 2007

“Ismo”, escolha o seu


Afonso Vieira

Segundo o dicionário, em uma conceituação simples, ideologia é: “ciência que trata da formação das idéias e da sua origem; conjunto de idéias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe, e que são produto de uma situação histórica e das aspirações dos grupos que as apresentam como imperativos da razão; sistema organizado e fechado de idéias que serve de base a uma luta política”. Isto exposto, venho chamar a atenção para o que vem ganhando vulto em alguns setores da mídia.

Há alguns anos, tínhamos um forte apelo às ideologias radicais esquerdistas, onde boa parte dos atuais ocupantes do poder ainda pregava a ditadura do proletariado e outras formas de governo - o que realmente gerava preocupação aos diversos setores, tanto da economia como da política. Passada a fase radical, e com o comprometimento do atual presidente com o cumprimento de contratos e uma política de responsabilidade fiscal nos moldes de seu antecessor, começou a aparecer um vácuo ideológico no que se pode dizer a centro-esquerda nacional. Por outro lado, verifica-se a radicalização do discurso de uma pequena fatia da chamada direita conservadora, onde as mais estapafúrdias teorias conspiratórias ganham fôlego e - pior - adeptos; temos ainda o surgimento de uma pequena vertente de liberais utópicos, que reverenciam o Deus mercado e demonizam o monstro Estado, mas se esquecem das conjunturas da terra brazilis.

Vemos uma infinidade de ideologias - comunismo, socialismo, liberalismo, conservadorismo, anarquismo e outras mais. As vertentes ganham voz nos fóruns de internet, com debates acalorados e representantes caricatos de todos os ângulos. Será que já não está mais do que na hora de aprendermos com a história? Não há hoje país nenhum - que se possa dizer desenvolvido - em que se aplique apenas um tipo de ideologia.

Não há mais espaço para impor uma ditadura do politicamente correto, ou mesmo basear costumes apenas em dogmas religiosos; não há como esperar que o mercado regule tudo, principalmente em paises com desigualdades sociais gritantes como o Brasil; não tem como socializar a propriedade constituída, desrespeitando leis e contratos; não há espaço para qualquer sistema que não respeite o diálogo e fatores externos e internos, tudo deve ser levado em consideração.

As teorias sempre são lindas, porém de aplicações duvidosas. O meio termo, o bom senso e o equilíbrio devem ser buscados, e - quando atingidos - preservados e aprimorados dentro de uma lógica permeada basicamente pela razão.

O mundo é composto por diversas nações, raças, credos, ideologias - enfim - uma infinidade de idéias. As culturas devem ser preservadas e, como sempre, respeitada a pluralidade.

Uns enxergam comunistas até mesmo nos setores mais capitalistas da mídia; outros, vêem um monstro selvagem e explorador na mais inocente empresa; e - a grande maioria dos radicais ideológicos - vê trama da mídia contra tudo e contra todos, digno da mais ridícula teoria conspiratória.

Já eu, vejo que falta amplitude de horizontes, visão da realidade e - principalmente - coerência, muita coerência.

* Publicado em O Jornal, edição 91, de 09 de julho de 2007.

4 comentários:

Yascara disse...

É isso, Chefe!

Agora, vambora aplicar a mesma coisa nos outros aspectos da Vida!

mtereza.psico disse...

Nós importamos muitos "ismos" desvinculados totalmente da nossa realidade...
Quando as idéias são repetidas sem conexão com qualquer experiência real elas se tornam detergentes cerebrais; só servem para lavagem.
O contato com a praxis é que deverá fundamentar ou refutar as crenças pré-concebidas.
A nossa preocupação deveria ser com a ética e o bom-senso.
Só é coerente com os outros e com a vida quem consegue ser consigo mesmo.


Muito bom o seu texto!

mafaldalavado disse...

Em nosso país, não haverá saída enquanto não houver mudanças no comportamento das pessoas, na forma de pensar. Antes de tudo, tem que vir a reflexão sobre os valores morais que desejamos cultivar e fazer valer. Bom senso e equilíbrio só será adquirido a partir disso, nunca antes!

Guto disse...

Concordo Afonso

A parte do liberalismo q acho q a maioria de nós defende seria a da menor quantidade de impostos, desburocratização e maior facilidade para livre-iniciativa se constituir de maneira legal.

Tb acho q devemos ser prudentes em quesitos de entregar ao mercado a anuência de tudo q ocorre.

Mas tb pode ser um erro considerar q o liberalismo faça isso de maneira cega.Tanto q em Capitalismo e Liberdade, Friedman chega a propor um imposto negativo (ou seja o Estado pagaria) para as pessoas q não obtiveram um nível mínimo de rendimentos anuais.

Com certeza isso não funcionaria no Brasil, haja visto nossa tradiçao em picaretagens.

E sabe quem é o adepto de Friedman no Brasil quanto ao imposto negativo?

O Eduardo Suplicy.

Abraços